domingo, 6 de setembro de 2009

A Violência e a Religião Cristã... do Matriarcado ao Patriarcado

Uma das incoerências fundamentais que assinalam a perda do poder transformador a mensagem cristã e a sua adequação aos valores mundanos não está na veneração à imagens, no culto devocional aos santos, a crença em sua capacidade de intervir entre os poderes celestiais para o benefício dos que permanecem no plano terreno... a grande incoerência é o emprego da violência - que sai da discussão e 'admoestação' como recomendada por Paulo, que passa pela exclusão, banimento da comunidade (também assinalada pelo apóstolo)... até a adoção da violência física em todos os graus que esses mesmos cristãos eram vítimas quando alvo das perseguições romanas... A mensagem de não-violência, a resistência pacífica, também pode ser considerada aviltada e pervertida pelos mesmos primeiros mártires... se pensarmos na atitude de não confrontação com o poder imperial praticada por Cristo - 'a César o que é de César), 'o meu Reino não é deste mundo', 'se alguém quer forçá-lo a uma caminhada, percorre com ele uma distância maior', 'se querem tomar sua capa, entrega também o manto'... É surpreendente que os encontremos tão zelosos em buscar a morte ao se recusarem a uma cerimônia patética e infantil de queimar incenso a uma figura que os genuínos cristãos sabiam nunca, jamais, ser divina...

Ora, Paulo recomendava numa de suas cartas que para não causar escândalo entre os cristãos de origem judaica, aqueles de origem gentia deveriam também se abster de certos alimentos que haviam sido oferecidos aos deuses ainda que "tudo lhes fosse lícito, nem tudo era conveniente"... Por outro lado, depois o contrário, por assim dizer, foi o que se fez... causou-se escândalo entre os gentios ainda pagãos e todo o mais que parecia combinar com o que Jesus dissera sobre vir trazer a espada e a confusão entre pai e filho etc... No entanto, podemos acreditar que ele se referia a essa busca pelo martírio, a essa promoção da violência? Não seria a 'confusão' e a disputa causada pela adesão radical ao programa ético-político que podemos vislumbrar de modo condensado no Sermão da Montanha?

O que devemos perceber no discurso e na prática acolhedora de Jesus é que a sua mensagem é profundamente materna... por mais que ele chame ao Criador de abba (pai, quase mesmo, papai) não poderia mesmo ir além disso... ou teria ido além dos limites aceitáveis demasiadamente rápido... Ora, não é o que se espera da mãe? Perdão, amor, compreensão, acolhimento ao filho que tropeçou... a defesa incondicional do nascido de seu ventre?

Jesus apontava para um passo além daquele que se observava em toda a sociedade da época e mesmo atual... ele apontava para uma atitude de resgate do matriarcado - na verdade, dialeticamente, de uma superação do patriarcado vigente e do matriarcado anterior... Onde há facilidade em derramar sangue, aí está a marca do patriarcado... onde há perdão incondicional... eis o matriarcado... mas ele supera e propõe a fraternidade em outros termos...

Enfim, a mensagem original, a genuína nitroglicerina do sistema hierárquico de poder... foi sendo mesclada a dolomita e a sílica, neutralizando e compartimentando... até que hoje, ela nunca atua em sua plenitude... e tão direcionada que serve apenas para reformas pessoais limitadas... Toda a energia desviada para drenar recursos para os cofres eclesiais...

Ainda assim, os traços da mensagem matriarcal permaneceram... mesmo que cristalizados de forma 'neutra' sob a imagem da Virgem... que mesmo essa foi alvo de bombardeio protestante... quando se jogou fora a criança junto com a água da bacia... É possível recuperar a essência? Toda nova seita diz que sim...

No entanto, talvez o principal não seja se preocupar com seitas, bispos, pastores, mestres, novas ou velhas religiões... e mesmo esse Deus... que precisa ser encontrado sob as roupagens autoritárias... a presença genuína e natural... que permite a cada indivíduo e aos que a ele se associarem... a comunhão e ação concreta pela transformação pessoal e social...

ASSIM QUE FIQUE CLARO O ERRO BÁSICO ORIGINAL... não pode haver fé genuína com intolerância e violência... Esse foi um erro que os bárbaros já receberam em sua evangelização... um erro que perdurou quando o Papa convocou a Primeira Cruzada - que foi arduamente combatido, em vão, por muitos que inclusive protestaram contra a fundação das Ordens Militares...

A violência que foi a constante 'devocional' na história da ordem templária trouxe para eles o seu fim... e os que permaneceram ocultos, livre-pensadores, pedreiros-livres... ou navegantes e construtores de fortalezas e ciência técnica... os que mantiveram a sua organização em Portugal... o Reino construído sob a égide da fé... sempre deturpada até no milagre fundador... o surgimento da imagem do crucificado para El-Rey que exclama... 'Não a mim, que creio, mas a eles (os infiéis) que deverias surgir...' Uma posição que demonstra a preservação de vidas que se tiraria de tal fenômeno... Enfim, esse mesmo reino que ostenta na Cruz-de-Cristo a sobreposição d cruz branca simbolizando a inocência, sobre a cruz templária... termina por essa mesma disciplina militar de tantos condestáveis da Ordem, apoiando o delírio de Dom Sebastião... e amargando o ocaso da nação lusitana como figura de ponta no cenário mundial... Aliás, tal delírio tendo sido estimulado por outra organização nascida fruto da mente brilhante e da vontade férrea mas completamente distorcida pelas restrições físicas. Eu me refiro a Santo Inácio de Loyola, cuja conversão certamente também foi condicionada pela perda da potência sexual no ferimento que o deixou no leito, a ler apenas o livro de história dos santos que lhe deflagrou o processo de conversão...

Se lembrarmos, para finalizar, que Santo Agostinho, outro que era sexualmente muito empenhado, só se acalmou e converteu-se porque não havia viagra na época... mas nunca foi capaz de assumir o filho e a companheira - não se casava porque não combinava bem com o status social dele... e a sua mãe querida, que curara o alcoolismo pelas missas, certamente não abonava perder o filho para uma mulher que não considerava digna de ser sua nora...

Ah! Violências e violências... quanto erro e desvio na mensagem transformadora para comunhão da humanidade...