terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Caminho para a iniciação feminina - de Dragões, Cavaleiros do Dragão e São Jorge... A busca da Plenitude do Espírito através do Corpo!

Essa seção tem textos extraídos do livro de Sylvia Brinton Perera "Caminho para a iniciação feminina" publicado pela Editora Paulus, 1985, na coleção "Amor & Psique".

O retorno à deusa, para renovação numa base de origem e num espírito feminino, é um aspecto vitalmente importante na busca que a mulher moderna empreende em direção à totalidade. Nós, mulheres que alcançamos sucesso no mundo, somos, via de regra, "filhas do pai", ou seja, somos bem adaptadas a uma sociedade de orientação masculina, e acabamos por repudiar nossos próprios instintos e energias mais integralmente femininos, rebaixando-os e deformando-os da mesma forma que nossa sociedade o fez. Precisamos retornar a esse mundo e redimir o que o patriarcado frequentemente considera apenas como uma ameça perigosa, chamando-o de mãe terrível, dragão ou bruxa.

O ego patriarcal dos homens, e também das mulheres, para atingir o seu estágio heróico e de disciplinamento do instinto, de esforço e de progresso, voou para longe do terror puro causado pela deusa. Tentou-se matá-la ou dividí-la em pedações para tirar-lhe a potência. Mas é em direção a eles, e especialmente aos seus aspectos reprimidos pela cultura, aquelas profundezas ctônicas, caóticas e inelutáveis, que o novo ego, bem equilibrado em yin e yang em seu processo de individuação, deve retornar para o encontro de sua matriz e da força incorporada e flexível que lhe permitam ser ativo e vulnerável e conquistar uma base própria, como também relacionar-se com os outros de maneira empática.

Esse retorno é considerado como um modelo de desenvolvimento feminino - é o que Erich Neumann chama de reconexão com o si mesmo, o arquétipo da totalidade e centro regulador da personalidade, - depois que o uroboros e o parceiro matrimonial patriarcais desvencilharam-se da mãe [Neumann, Psychological Stages of Feminine Development', p.96]. Mas Adrienne Rich fala por muitas de nós quando escreve: "A mulher que eu precisava chamar de mãe foi silenciada antes de eu ter nascido" [Adrienne Rich, Reformina the Crystal, in Poems: Selected and New, p228, 1950-1974]. Infelizemente, muitíssimas mulheres modernas (na verdade quase todas) não receberam desde o início os cuidados da mãe. Pelo contrário, foram criadas em lares difíceis, de autoridade abstrata e coletiva ("cortadas do contato com a terra pelos tornozelos", como observou uma mulher), cheios dos "é preciso" e dos "deve-se" do superego. Ou, então, acabaram por identificar-se com o pai e a cultura patriarcal, alienando-se de sua própria base feminina e da mãe pessoal, que frequentemente é or elas considerada fraca e irrelevante. Essas mulheres têm a necessidade premente de se defrontarem com a deusa em sua realidade fundamental.

Uma conexão interior dessa natureza é uma iniciação essencial para a maior parte das mulheres modernas do Ocidente; sem ela não podemos ser completas. Esse processo requer, a um só tempo, um sacrifício de nossa identidade enquanto filhas espirituais do patriarcado, e uma descida para dentro do espírito da deusa, porque uma extensão enorme da força e da paixão do feminino está adormecida no mundo subterrâneo, no exílio há mais de 5000 anos.

Discutiremos posteriormente...